O Paradoxo do Compliance: O Volume de Denúncias Cresce, mas a Qualidade Cai. Como Resolver?
O volume de denúncias corporativas cresceu no último ano, mas a proporção de relatos com informações úteis para investigação despencou. Entenda por que isso está acontecendo e quais passos o RH deve tomar para qualificar os relatos e evitar casos "não conclusivos".

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O Cenário: As empresas estão recebendo mais denúncias (média de 9,8 a cada 1.000 colaboradores), mas a taxa de relatos qualificados caiu expressivamente.
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O Custo Operacional: Denúncias rasas ou incompletas inflam o Tempo Médio de Apuração (TMA). Casos não conclusivos chegam a demorar 62 dias para serem encerrados.
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A Solução: Treinamento contínuo e estruturação correta do formulário de entrada são essenciais para educar o colaborador sobre como realizar um relato efetivo.
Se você atua na área de Recursos Humanos ou Compliance, provavelmente já celebrou o aumento no número de relatos no canal da sua empresa. Afinal, um volume crescente geralmente indica que os colaboradores estão perdendo o medo de falar e que o programa de integridade está ganhando maturidade . No entanto, a mais recente 11ª Pesquisa Nacional de Canais de Denúncias trouxe à tona um paradoxo desafiador para os gestores: as pessoas estão denunciando mais, mas estão relatando pior.
Em 2021, 76,3% de todas as denúncias corporativas no Brasil eram consideradas "qualificadas" — ou seja, possuíam informações, detalhes e contextos suficientes para viabilizar uma investigação justa e efetiva.Em 2025, esse número despencou para apenas 67%. Mas o que explica essa queda e, mais importante, como o RH pode evitar que o setor de apuração perca horas valiosas correndo atrás de informações que não existem?
O Custo das Denúncias Incompletas
O impacto de uma denúncia mal formulada vai muito além da frustração de quem investiga. Ele afeta diretamente a eficiência operacional da empresa e a credibilidade do setor. Segundo os dados de mercado, o Tempo Médio de Apuração (TMA) no Brasil hoje é de 42 dias. Porém, quando a denúncia é tão rasa que a equipe de investigação não consegue encontrar provas ou direcionamento, o caso costuma ser encerrado como "não conclusivo". E é aqui que mora o gargalo: esses casos não conclusivos chegam a demorar, em média, 62 dias para serem finalizados (20 dias a mais do que casos que resultam em procedência). O índice de investigações encerradas sem conclusão subiu de 16,1% em 2024 para 17,9% em 2025. Do ponto de vista do colaborador que denunciou, o encerramento sem ação pode gerar uma sensação de que "nada acontece", minando a confiança na governança da empresa.
Por que os relatos chegam vazios?
Existem três razões principais para a deterioração do perfil das denúncias nas organizações brasileiras:
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Novos usuários sem orientação: Com a popularização dos canais (impulsionada por legislações trabalhistas), novos colaboradores estão usando o sistema pela primeira vez sem saberem o que constitui, de fato, uma evidência.
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O canal via site/formulário: A pesquisa mostra que 71,4% do volume de relatos chega via web (site). Curiosamente, a qualidade das denúncias via site é de apenas 64%, enquanto as feitas por telefone (com a ajuda de um atendente) chegam a 78% de qualificação. Sozinho diante da tela, o colaborador omite detalhes fundamentais.
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Medo e Anonimato: Em 2025, 64,7% das denúncias foram anônimas. Com receio de serem identificados, muitos colaboradores são excessivamente vagos (ex: "Tem assédio no setor de vendas"), não citando datas, horários ou testemunhas.
O que o RH e o Compliance podem fazer na prática?
Para reverter esse cenário, a empresa precisa assumir a responsabilidade de "educar" o denunciante. Ter um canal de denúncias estruturado é o passo básico, mas a estratégia de comunicação em torno dele é o que define o sucesso da operação. Revise o formulário de entrada: Não deixe apenas uma caixa de texto em branco. O formulário deve ser guiado, exigindo que o colaborador responda perguntas específicas: "Quando aconteceu?", "Quem estava presente?", "Há documentos ou mensagens de e-mail que possam provar?".
Treinamento contínuo: A integração (onboarding) e as reciclagens anuais não devem focar apenas em dizer que o canal existe. O treinamento precisa incluir exemplos práticos de como construir uma boa denúncia e o que o comitê de ética precisa saber para conseguir investigar.
Garantia real de proteção: O colaborador só dará detalhes precisos se confiar que não sofrerá retaliações. Reforce ativamente a política de proteção ao denunciante em todos os comunicados internos.
Um programa de integridade efetivo não é medido apenas pelo volume de protocolos abertos, mas pela capacidade da empresa de transformar relatos em apurações justas, ágeis e proporcionais.
FAQ Rápido: Gestão de Denúncias
1. O que é uma denúncia qualificada? É o relato que contém o mínimo de materialidade, contexto e detalhamento (quem, quando, onde, como e por quê) necessário para que o setor de apuração inicie uma investigação efetiva e rastreável.
2. O alto índice de anonimato é um problema? Não necessariamente. O anonimato encoraja quem tem medo de retaliação a falar (e a pesquisa indica que denúncias anônimas até apresentam taxas de qualificação levemente maiores que as identificadas). O problema surge quando o anonimato é fruto de uma desconfiança generalizada de que a empresa não protege a identidade de quem decide se expor.
3. Como reduzir o tempo das investigações não conclusivas? A melhor forma de reduzir o Tempo Médio de Apuração (TMA) nesses casos é realizando uma triagem mais rigorosa logo na entrada da denúncia. Casos que claramente não possuem escopo investigativo ou dados suficientes devem ser arquivados rapidamente, evitando que a equipe perca dezenas de dias buscando informações inexistentes.
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